A arte do encontro

A vida é a arte do encontro, embora existam tantos desencontros pela vida...

sábado, 30 de junho de 2012

Programa Educa Piauí discute sobre preconceito linguístico




Ontem, 29 de junho, o Programa Educa Piauí abordou o tema Preconceito Linguístico. Apresentado todas as sextas-feiras na TV Assembleia pelo Prof. Wellington Soares, o programa discute temáticas relacionadas à educação e cultura. Tive o prazer de participar, ao lado do Prof. Camilo França, de um debate eficaz, produtivo e esclarecedor sobre esse tema.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Estarei no 10º Salipi falando sobre "A tirania do discurso"




No período de 10 a 17 de junho Teresina irá vivenciar a 10ª edição do Salipi que, este ano, homenageia o dramaturgo, contista, cronista e crítico teatral Francisco Pereira da Silva. No dia 14/06 às 8h irei ministrar palestra intitulada: "A tirania do discurso: um amálgama entre a linguística, a literatura, a política e a mídia".

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Eu, tu & ele

As categorias de pessoa em discursos podem servir para criar efeito de distanciamento ou proximidade

José Luiz Fiorin


O presidente Lula disse "agora quem me deve é o FMI":uso da primeira pessoa em discurso assinala subjetividade
Num artigo publicado na Folha de S.Paulo de 31/1/2010, Elio Gaspari relata que Lula teria dito: "O FMI chegava ao Brasil humilhando o governo, dando palpite. Se antes era o Brasil que devia ao FMI e ficava como cachorro magro com o rabo entre as pernas, agora quem me deve é o FMI". O articulista acrescenta o seguinte comentário: "O FMI não deve dinheiro a Lula. Deve ao Brasil". Ele reprova o Presidente pelo fato de usar uma primeira pessoa do singular no lugar de uma terceira do singular, o Brasil.

Sabemos que há três pessoas gramaticais: a primeira, que indica aquele que fala; a segunda, que aponta aquele com quem se fala; a terceira, que denota aquele ou aquilo de que se fala. Como a pessoa se flexiona em número, temos a primeira, a segunda e a terceira pessoa do singular e do plural. A categoria de pessoa é manifestada na língua pelos pronomes pessoais retos (eu, tu, ele, nós, vós, eles) e oblíquos (me, mim, comigo, te, ti, contigo, o, a, os, as, lhe; lhes, nos, conosco, vos, convosco); pelos pronomes possessivos (meu, teu, seu, nosso, vosso) e pelas desinências número-pessoais dos verbos.

Benveniste, estudando essa categoria da língua, mostra que há uma diferença considerável entre a primeira e a segunda pessoa de um lado e a terceira de outro. Do ponto de vista morfológico, só a terceira pessoa faz a flexão de número de acordo com a regra geral de formação do plural (em português, as palavras terminadas em vogal fazem o plural com o acréscimo de um s); apenas essa pessoa tem flexão em gênero (ele/ela). Além disso, a primeira e a segunda pessoas indicam os participantes da enunciação, o enunciador e o enunciatário, enquanto a terceira indica qualquer outro ser do mundo ou mesmo nenhum. Qualquer coisa de que falamos pode ser substituída por "ele"; se temos uma expressão impessoal (por exemplo, uma oração sem sujeito, como "chove", "neva"), utilizamos a terceira pessoa. Há uma reversibilidade entre "eu" e "tu" durante uma comunicação: a pessoa a quem o "eu" se dirige é um "tu" e, quando este toma a palavra, passa a ser um "eu" que se endereça a um "tu". Com o "ele", essa reversibilidade não ocorre. Isso leva o linguista francês a dizer que o "eu" e o "tu" são verdadeiramente pessoas, são os actantes da enunciação, enquanto o "ele" é uma não pessoa, é o actante do enunciado.

Pessoa ampliada

O fato de termos formas diferentes para o plural da primeira e da segunda pessoa mostra que não se trata de simples pluralizações. "Nós" não é o plural de "eu", é uma pessoa ampliada: não indica vários "eu", mas eu + outra(s) pessoa(s) (por exemplo: "eu e você"; "eu e ele"; "eu, você e ele"; "eu e vocês"). "Vós" ("vocês", como dizemos) pode ser o plural de "tu", porque, se a fala é um ato individual, o enunciador pode dirigir-se a vários enunciatários. Mas pode ser também uma pessoa ampliada (por exemplo, tu + ele, tu + eles). Só "eles" é realmente apenas o plural de "ele".

A operação com que a enunciação instaura a pessoa no enunciado é chamada debreagem actancial, que pode ser de dois tipos: a enunciativa, que projeta no enunciado as pessoas da enunciação, "eu/tu"; e a enunciva, que instala o actante do enunciado, "ele". Há, pois, dois grandes procedimentos de discursivização da categoria de pessoa: a) a narrativa em primeira pessoa, construída com a debreagem actancial enunciativa, em que se instituem no texto os parceiros da enunciação, "eu" ou "tu"; b) a chamada narrativa em terceira pessoa, organizada com a debreagem actancial enunciva, em que aparecem apenas os actantes do enunciado, "ele", pois o "eu" e o "tu" não se enunciam no interior do enunciado.

A narrativa em primeira pessoa cria um efeito de subjetividade:
"Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta." Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam. (O Ateneu, Raul Pompeia, cap. I).

A denominada narrativa em terceira pessoa produz um efeito de objetividade, porque é como se os fatos se narrassem a si mesmos:
"Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das árvores nem se mexiam; as carroças d'água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios; e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam sem-cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho" (O Mulato, Aluisio Azevedo, cap. I)

Personagem

O "eu" projetado no interior do enunciado, o narrador, pressupõe um "eu" que o instalou aí. Esse "eu" pressuposto é o enunciador, o autor (não de carne e osso, mas uma imagem do autor criada pelo texto). O narrador pode dar a palavra a personagens, que, em discurso direto, falam também em primeira pessoa. Nesse caso, temos um interlocutor. Como para cada "eu", há um "tu", temos o enunciatário, o leitor pressuposto; o narratário, alguém a quem o narrador pode dirigir-se ("A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus"  (Machado de Assis, Memórias Póstumas). O "tu" a quem o interlocutor se endereça é o interlocutário.

Há outra operação de discursivização da pessoa: a embreagem, que é o retorno à instância de enunciação pelo uso de uma pessoa no lugar de outra criando efeitos de sentido. É o que fez Lula no exemplo que abre este texto: ele utilizou uma primeira pessoa do singular no lugar de uma terceira pessoa criando um efeito de subjetividade, para mostrar que cabe a ele representar o Brasil. Não é o caso da ácida observação do articulista da Folha. Um procedimento inverso é o uso da terceira pessoa no lugar da primeira, para criar um efeito de objetividade como se a pessoa falasse de uma personagem. É o que faz Pelé, por exemplo: "É difícil carregar a fama do Pelé. As tentações são muitas. O Edson é humano e adoraria levar uma vida mais divertida, mas sabe que é o equilíbrio e a base do Pelé. Os dois sabem quanto é importante não decepcionar o povo brasileiro" (Veja, 4/3/2009). O plural majestático é outro caso de embreagem: "Nós, el-rei, fazemos saber..." Qualquer pessoa pode ser usada no lugar de qualquer outra para produzir efeitos de sentido.

José Luiz Fiorin é professor do Departamento de Linguística da USP e autor do livro As astúcias da enunciação, da Editora Ática.  

Fonte: Revista Língua Portuguesa - http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12050

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Falarei sobre a "virgindade emocional" do editorial no I COGITE - Colóquio de Estudos sobre Gêneros & Textos a ser realizado na UFPI no próximo dia 18 de novembro

Durante a realização do I COGITE - Colóquio de Estudos sobre Gêneros & Textos - que acontecerá na UFPI no próximo dia 18 de novembro, apresentarei um trabalho denominado: O gênero editorial e a “virgindade emocional”: mito ou realidade? O objetivo do trabalho, segundo o professor, é analisar a suposta frieza enunciativa atribuída aos editoriais de jornal. De acordo com o autor, o editorial pode ser um gênero com alto índice de "patemização", ou seja, pode ter a capacidade de suscitar emoções no auditório ao qual se destina. Vejam, abaixo, o resumo do trabalho:

O editorial, tal qual o texto científico, é visto pelo imaginário social como algo frio, impessoal, não emocional. Ao observarmos esse gênero textual, verificamos que razão e emoção parecem pertencer a domínios completamente antagônicos. Sem dúvida, as origens dessa separação remontam à oposição instaurada entre a razão e a emoção, que surge muito cedo na história da Filosofia. Essa oposição pressupõe frequentemente uma hierarquia entre dois polos, de tal forma que a emoção, primitiva, bestial, perigosa, desempenha um papel inferior ao da razão, sob o controle da qual deve ser colocada (Solomon, 1993). De acordo com Doury (2002), a estrutura científica, essencialmente processual, na qual o pensamento avança sob o controle rigoroso de protocolos lógico-experimentais, é vista como antinômica das emoções. Ainda a respeito da frieza científica, a autora afirma que essa “virgindade emocional” da ciência não constitui uma descrição da prática científica efetiva. Tal qual o discurso científico, o editorial também pode conter um alto índice de patemização, jogando por terra o mito da suposta virgindade emocional. Já não se pode mais ignorar a emoção como o fizeram Platão, seguido por outros tantos filósofos como Santo Agostinho até chegar a Kant e Descartes. Para o último, as paixões seriam signo de doença e, somente se fossem alijadas, a mente estaria em perfeita saúde. O presente trabalho é um recorte da minha pesquisa de doutorado na UFMG que trata dos processos argumentativos em editoriais da imprensa escrita do Piauí no período de 2007 a 2010. Nele, partimos das concepções de ethos, pathos e logos presentes na Retórica aristotélica e exploramos tais noções em trabalhos de autores contemporâneos, como Doury (2002), Amossy (2005) e Charaudeau (2010).  Por meio de tal estudo, partimos do slogan utilizado pelo governo do Piauí no período de 2003 a 2010 “É feliz quem vive aqui” e destacamos o papel de destaque do pathos na construção de discursos jornalísticos veiculados pela imprensa local, considerando suas especificidades e peculiaridades regionais, constituídas mútua e polemicamente em torno de alguns acontecimentos políticos. Observamos as principais construções discursivas que visam a persuadir ou convencer os leitores através do recurso da patemização. Para efeito de análise, utilizamos um editorial publicado pelo jornal Meio Norte, do estado do Piauí, em três de abril de 2010, e, através desse discurso escrito, sublinhamos e analisamos o potencial patêmico dos marcadores argumentativos que reforçam a verdade, isto é, a ideia sobre a qual o orador deseja que seu auditório reflita e acolha. Nos discursos analisados, a emoção funciona como uma representação social, originando-se numa “racionalidade subjetiva”. Tal possibilidade faz do enunciador um porta-voz da sociedade, capaz de operacionalizar uma rede discursiva que favoreça o surgimento de adesões e comportamentos positivos frente ao conjunto de ideias formulado.

Palavras-chave: Gênero. Discurso. Mídia. Pathos.

Sessão: Gêneros jornalísticos na mídia

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Representarei a UFPI em evento internacional

Eu e o linguista francês Dominique Maingueneau


Representarei a UFPI no IX Congresso Latino-Americano de Estudos do Discurso que acontecerá no período de 1 a 4 de novembro de 2011 no campus da UFMG, em Belo Horizonte. O evento tem como tema: "Discursos da América Latina: vozes, sentidos e identidades". Na oportunidade, apresentarei o trabalho intitulado: "Vozes do Piauí: a produção de sentidos e a construção de identidades em discursos de editoriais da imprensa escrita". O evento contará com a participação de pesquisadores estrangeiros como Dominique Maingueneau, Patrick Charaudeau e Teun A. van Dijk, além de grandes nomes da linguística no Brasil como Ingedore Villaça Koch e José Luiz Fiorin. Maiores informações podem ser obtidas no endereço: http://www.ufmg.br/eventos/congressoaled/