A arte do encontro

A vida é a arte do encontro, embora existam tantos desencontros pela vida...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Eu, tu & ele

As categorias de pessoa em discursos podem servir para criar efeito de distanciamento ou proximidade

José Luiz Fiorin


O presidente Lula disse "agora quem me deve é o FMI":uso da primeira pessoa em discurso assinala subjetividade
Num artigo publicado na Folha de S.Paulo de 31/1/2010, Elio Gaspari relata que Lula teria dito: "O FMI chegava ao Brasil humilhando o governo, dando palpite. Se antes era o Brasil que devia ao FMI e ficava como cachorro magro com o rabo entre as pernas, agora quem me deve é o FMI". O articulista acrescenta o seguinte comentário: "O FMI não deve dinheiro a Lula. Deve ao Brasil". Ele reprova o Presidente pelo fato de usar uma primeira pessoa do singular no lugar de uma terceira do singular, o Brasil.

Sabemos que há três pessoas gramaticais: a primeira, que indica aquele que fala; a segunda, que aponta aquele com quem se fala; a terceira, que denota aquele ou aquilo de que se fala. Como a pessoa se flexiona em número, temos a primeira, a segunda e a terceira pessoa do singular e do plural. A categoria de pessoa é manifestada na língua pelos pronomes pessoais retos (eu, tu, ele, nós, vós, eles) e oblíquos (me, mim, comigo, te, ti, contigo, o, a, os, as, lhe; lhes, nos, conosco, vos, convosco); pelos pronomes possessivos (meu, teu, seu, nosso, vosso) e pelas desinências número-pessoais dos verbos.

Benveniste, estudando essa categoria da língua, mostra que há uma diferença considerável entre a primeira e a segunda pessoa de um lado e a terceira de outro. Do ponto de vista morfológico, só a terceira pessoa faz a flexão de número de acordo com a regra geral de formação do plural (em português, as palavras terminadas em vogal fazem o plural com o acréscimo de um s); apenas essa pessoa tem flexão em gênero (ele/ela). Além disso, a primeira e a segunda pessoas indicam os participantes da enunciação, o enunciador e o enunciatário, enquanto a terceira indica qualquer outro ser do mundo ou mesmo nenhum. Qualquer coisa de que falamos pode ser substituída por "ele"; se temos uma expressão impessoal (por exemplo, uma oração sem sujeito, como "chove", "neva"), utilizamos a terceira pessoa. Há uma reversibilidade entre "eu" e "tu" durante uma comunicação: a pessoa a quem o "eu" se dirige é um "tu" e, quando este toma a palavra, passa a ser um "eu" que se endereça a um "tu". Com o "ele", essa reversibilidade não ocorre. Isso leva o linguista francês a dizer que o "eu" e o "tu" são verdadeiramente pessoas, são os actantes da enunciação, enquanto o "ele" é uma não pessoa, é o actante do enunciado.

Pessoa ampliada

O fato de termos formas diferentes para o plural da primeira e da segunda pessoa mostra que não se trata de simples pluralizações. "Nós" não é o plural de "eu", é uma pessoa ampliada: não indica vários "eu", mas eu + outra(s) pessoa(s) (por exemplo: "eu e você"; "eu e ele"; "eu, você e ele"; "eu e vocês"). "Vós" ("vocês", como dizemos) pode ser o plural de "tu", porque, se a fala é um ato individual, o enunciador pode dirigir-se a vários enunciatários. Mas pode ser também uma pessoa ampliada (por exemplo, tu + ele, tu + eles). Só "eles" é realmente apenas o plural de "ele".

A operação com que a enunciação instaura a pessoa no enunciado é chamada debreagem actancial, que pode ser de dois tipos: a enunciativa, que projeta no enunciado as pessoas da enunciação, "eu/tu"; e a enunciva, que instala o actante do enunciado, "ele". Há, pois, dois grandes procedimentos de discursivização da categoria de pessoa: a) a narrativa em primeira pessoa, construída com a debreagem actancial enunciativa, em que se instituem no texto os parceiros da enunciação, "eu" ou "tu"; b) a chamada narrativa em terceira pessoa, organizada com a debreagem actancial enunciva, em que aparecem apenas os actantes do enunciado, "ele", pois o "eu" e o "tu" não se enunciam no interior do enunciado.

A narrativa em primeira pessoa cria um efeito de subjetividade:
"Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta." Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam. (O Ateneu, Raul Pompeia, cap. I).

A denominada narrativa em terceira pessoa produz um efeito de objetividade, porque é como se os fatos se narrassem a si mesmos:
"Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das árvores nem se mexiam; as carroças d'água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios; e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam sem-cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho" (O Mulato, Aluisio Azevedo, cap. I)

Personagem

O "eu" projetado no interior do enunciado, o narrador, pressupõe um "eu" que o instalou aí. Esse "eu" pressuposto é o enunciador, o autor (não de carne e osso, mas uma imagem do autor criada pelo texto). O narrador pode dar a palavra a personagens, que, em discurso direto, falam também em primeira pessoa. Nesse caso, temos um interlocutor. Como para cada "eu", há um "tu", temos o enunciatário, o leitor pressuposto; o narratário, alguém a quem o narrador pode dirigir-se ("A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus"  (Machado de Assis, Memórias Póstumas). O "tu" a quem o interlocutor se endereça é o interlocutário.

Há outra operação de discursivização da pessoa: a embreagem, que é o retorno à instância de enunciação pelo uso de uma pessoa no lugar de outra criando efeitos de sentido. É o que fez Lula no exemplo que abre este texto: ele utilizou uma primeira pessoa do singular no lugar de uma terceira pessoa criando um efeito de subjetividade, para mostrar que cabe a ele representar o Brasil. Não é o caso da ácida observação do articulista da Folha. Um procedimento inverso é o uso da terceira pessoa no lugar da primeira, para criar um efeito de objetividade como se a pessoa falasse de uma personagem. É o que faz Pelé, por exemplo: "É difícil carregar a fama do Pelé. As tentações são muitas. O Edson é humano e adoraria levar uma vida mais divertida, mas sabe que é o equilíbrio e a base do Pelé. Os dois sabem quanto é importante não decepcionar o povo brasileiro" (Veja, 4/3/2009). O plural majestático é outro caso de embreagem: "Nós, el-rei, fazemos saber..." Qualquer pessoa pode ser usada no lugar de qualquer outra para produzir efeitos de sentido.

José Luiz Fiorin é professor do Departamento de Linguística da USP e autor do livro As astúcias da enunciação, da Editora Ática.  

Fonte: Revista Língua Portuguesa - http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12050

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Falarei sobre a "virgindade emocional" do editorial no I COGITE - Colóquio de Estudos sobre Gêneros & Textos a ser realizado na UFPI no próximo dia 18 de novembro

Durante a realização do I COGITE - Colóquio de Estudos sobre Gêneros & Textos - que acontecerá na UFPI no próximo dia 18 de novembro, apresentarei um trabalho denominado: O gênero editorial e a “virgindade emocional”: mito ou realidade? O objetivo do trabalho, segundo o professor, é analisar a suposta frieza enunciativa atribuída aos editoriais de jornal. De acordo com o autor, o editorial pode ser um gênero com alto índice de "patemização", ou seja, pode ter a capacidade de suscitar emoções no auditório ao qual se destina. Vejam, abaixo, o resumo do trabalho:

O editorial, tal qual o texto científico, é visto pelo imaginário social como algo frio, impessoal, não emocional. Ao observarmos esse gênero textual, verificamos que razão e emoção parecem pertencer a domínios completamente antagônicos. Sem dúvida, as origens dessa separação remontam à oposição instaurada entre a razão e a emoção, que surge muito cedo na história da Filosofia. Essa oposição pressupõe frequentemente uma hierarquia entre dois polos, de tal forma que a emoção, primitiva, bestial, perigosa, desempenha um papel inferior ao da razão, sob o controle da qual deve ser colocada (Solomon, 1993). De acordo com Doury (2002), a estrutura científica, essencialmente processual, na qual o pensamento avança sob o controle rigoroso de protocolos lógico-experimentais, é vista como antinômica das emoções. Ainda a respeito da frieza científica, a autora afirma que essa “virgindade emocional” da ciência não constitui uma descrição da prática científica efetiva. Tal qual o discurso científico, o editorial também pode conter um alto índice de patemização, jogando por terra o mito da suposta virgindade emocional. Já não se pode mais ignorar a emoção como o fizeram Platão, seguido por outros tantos filósofos como Santo Agostinho até chegar a Kant e Descartes. Para o último, as paixões seriam signo de doença e, somente se fossem alijadas, a mente estaria em perfeita saúde. O presente trabalho é um recorte da minha pesquisa de doutorado na UFMG que trata dos processos argumentativos em editoriais da imprensa escrita do Piauí no período de 2007 a 2010. Nele, partimos das concepções de ethos, pathos e logos presentes na Retórica aristotélica e exploramos tais noções em trabalhos de autores contemporâneos, como Doury (2002), Amossy (2005) e Charaudeau (2010).  Por meio de tal estudo, partimos do slogan utilizado pelo governo do Piauí no período de 2003 a 2010 “É feliz quem vive aqui” e destacamos o papel de destaque do pathos na construção de discursos jornalísticos veiculados pela imprensa local, considerando suas especificidades e peculiaridades regionais, constituídas mútua e polemicamente em torno de alguns acontecimentos políticos. Observamos as principais construções discursivas que visam a persuadir ou convencer os leitores através do recurso da patemização. Para efeito de análise, utilizamos um editorial publicado pelo jornal Meio Norte, do estado do Piauí, em três de abril de 2010, e, através desse discurso escrito, sublinhamos e analisamos o potencial patêmico dos marcadores argumentativos que reforçam a verdade, isto é, a ideia sobre a qual o orador deseja que seu auditório reflita e acolha. Nos discursos analisados, a emoção funciona como uma representação social, originando-se numa “racionalidade subjetiva”. Tal possibilidade faz do enunciador um porta-voz da sociedade, capaz de operacionalizar uma rede discursiva que favoreça o surgimento de adesões e comportamentos positivos frente ao conjunto de ideias formulado.

Palavras-chave: Gênero. Discurso. Mídia. Pathos.

Sessão: Gêneros jornalísticos na mídia

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Representarei a UFPI em evento internacional

Eu e o linguista francês Dominique Maingueneau


Representarei a UFPI no IX Congresso Latino-Americano de Estudos do Discurso que acontecerá no período de 1 a 4 de novembro de 2011 no campus da UFMG, em Belo Horizonte. O evento tem como tema: "Discursos da América Latina: vozes, sentidos e identidades". Na oportunidade, apresentarei o trabalho intitulado: "Vozes do Piauí: a produção de sentidos e a construção de identidades em discursos de editoriais da imprensa escrita". O evento contará com a participação de pesquisadores estrangeiros como Dominique Maingueneau, Patrick Charaudeau e Teun A. van Dijk, além de grandes nomes da linguística no Brasil como Ingedore Villaça Koch e José Luiz Fiorin. Maiores informações podem ser obtidas no endereço: http://www.ufmg.br/eventos/congressoaled/

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Comentei pesquisa sobre leitura na TV Meio Norte



Participei do programa Super Top da TV Meio Norte na última quinta-feira, 1° de setembro comentando pesquisa recente que aponta deficiências de leitura entre os estudantes brasileiros. Segundo a pesquisa, mais de 40% dos alunos que concluíram o 3° ano do ensino fundamental não têm o aprendizado em leitura esperado para essa etapa. Isso significa que não dominam bem atividades como localizar informações em um texto ou o tema de uma narrativa. Esse é o resultado de uma avaliação aplicada no primeiro semestre deste ano a 6 mil alunos de escolas municipais, estaduais e privadas de todas as capitais do país. O objetivo era aferir o nível de aprendizado das crianças no início da vida escolar, após os três primeiros anos de estudo.

A Prova ABC é uma parceria do movimento Todos Pela Educação, do Instituto Paulo Montenegro/Ibope, da Fundação Cesgranrio e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). A avaliação utilizou a mesma escala da desempenho adotada pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), exame aplicado pelo Ministério da Educação (MEC) aos alunos do 5° e 9° do ensino fundamental. Por esse modelo, o aluno tem o aprendizado considerado adequado quando atinge 175 pontos. O desempenho médio em leitura dos alunos participantes da Prova ABC foi 185,5 pontos – mas há grande variação nas notas de escolas públicas e privadas e entre estudantes do Norte e Nordeste em relação ao restante do país.

Enquanto os alunos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste tiveram desempenho acima da média nacional – chegando a 197 pontos no Sul – os do Norte e Nordeste atingiram, respectivamente, 172 e 167 pontos. Os resultados também variam entre as escolas públicas e particulares: a média dos estudantes da rede pública foi 175,8 pontos, contra 216,7 entre os da rede privada.

Os alunos que participaram da prova também fizeram uma redação para avaliar competências como coesão, coerência e adequação do texto ao tema proposto, além da observação das normas ortográficas e de pontuação. O desempenho esperado, em uma escala de 0 a 100, era pelo menos 75 pontos. Mas a média nacional foi 68,1, sendo a nota dos alunos das escolas públicas seis pontos inferior a essa média e a dos estudantes da rede privada, 18 pontos superior.

Também foi avaliado o conhecimento dos participantes em matemática, cuja média nacional foi 171,1 pontos - abaixo do nível determinado como aprendizado adequado. O aluno precisaria atingir 175 para ser considerado apto a resolver problemas envolvendo notas e moedas, além de dominar a adição e a subtração. Apenas 42% do total dos avaliados atingiram esse patamar.

As habilidades dos estudantes com os números também foi superior na rede privada, cuja média foi 211,2 pontos contra 158 na pública. Os alunos do Norte e Nordeste também tiveram resultados inferiores – 152,6 e 158, 2 pontos respectivamente – em relação aos participantes do Sul (185 pontos), Sudeste (179 pontos) e Centro-Oeste (176 pontos).
Fonte: Agência Brasil.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Participarei de evento científico na UFRN em Natal.

Integrantes do Grupo de Pesquisa em Gênero, Texto e Discurso – CATAPHORA – irão participar do VI Simpósio Internacional de Gênero Textuais – SIGET – no período de 16 a 19 de agosto próximo, no Praiamar Natal Hotel & Convention, em Natal (RN).

O SIGET, que ocorre bienalmente, agrega pesquisadores do Brasil e também do exterior que se dedicam ao estudo dos gêneros de discurso sob os mais diversos vieses teóricos. São objetivos desse evento discutir, divulgar e reanalisar questões teóricas e aplicadas aos gêneros de discurso além de oportunizar discussões sobre assuntos relevantes para compor políticas governamentais aplicadas ao ensino.

O evento é composto por conferências, mesas-redondas, painéis, simpósios temáticos, sessões de comunicação individual, sessões de pôsteres, minicursos, lançamento de livros e atividades culturais. Os integrantes do Cataphora participarão de apresentação de pôster, de comunicação individual e do grupo temático “Gêneros: a tensão entre versatilidade e permanência”, coordenado pelo professor Dr. Francisco Alves Filho da Universidade Federal do Piauí (e também coordenador do Cataphora) e pela professora Dra. Aurea Zavam, da Universidade Federal do Ceará. O principal objetivo desse simpósio temático é tecer discussões sobre o caráter dinâmico e flexível dos gêneros, observando-os tanto sincronicamente como em uma perspectiva diacrônica e relacionando-os às forças centrípetas e centrífugas que conferem aos gêneros o poder de adaptabilidade e permanência.

Os membros do Grupo CATAPHORA apresentarão os trabalhos: “As universidades tuitam recorrentemente o quê?” (Bruno Diego – UFPI), “O gênero editorial de jornal pela ótica dos leitores” (Digenário Pessoa – UEMA), “O gênero editorial e o princípio da alteridade” (João Benvindo de Moura – UFPI), “Gênero entrevista de emprego” (Lafity do Santos Silva – UEMA/IDB), Ação pragmática desempenhada pelos perfis fakes de celebridades no Twitter: a visão dos criadores (Leila Rachel – UFPI), “O que vira notícia? As operações de retextualização em notícias de portais on-line” (Maria Lourdilene Vieira – UFMG/UFMA), “Gênero e propósitos comunicativos: uma análise de editoriais de jornal” (Emanoel Barbosa – UFPI) e “Processo de recategorização e construção de efeitos de sentido no Twitter” (Silvana Calixto – UFPI/UESPI). Também participarão do simpósio coordenado pelo professor Francisco Alves e pela professora Aurea Zavam, pesquisadores de outras instituições brasileiras e do exterior.

Fonte: http://cataphora.blogspot.com/2011/08/grupocataphora-participara-do-vi-siget.html