A arte do encontro

A vida é a arte do encontro, embora existam tantos desencontros pela vida...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A novela da UESPI em Picos



A situação do campus da UESPI de Picos é realmente estarrecedora e parece ter raízes históricas, a começar pelo local de instalação do mesmo na década de 1990 em espaço onde funcionava o antigo Campus Avançado da Universidade Federal de Goiás cuja principal atividade era o Projeto Rondon. Tratava-se de um terreno de, aproximadamente, vinte mil metros quadrados localizado no bairro Junco, onde havia uma sede administrativa, quadras de esporte, laboratórios e uma imensa área verde com árvores frondosas.

Quando da minha gestão na presidência da Associação de Moradores do Bairro Junco, no período de 1991 a 1993, apresentei vários projetos à Prefeitura de Picos e ao governo do estado, no sentido de transformar aquela área num Parque Municipal com trilhas, praças, lagos, espaços para práticas de esporte etc. Seria um investimento pequeno tendo em vista que grande parte da infra-estrutura já estava pronta e a área verde já existia. Picos passaria a ter, assim, um espaço ecológico para descanso e lazer, destoando um pouco da lama e da poeira tão características, infelizmente, da nossa cidade.

Inesperadamente e de forma irracional, esse espaço passou a ser “loteado” a partir de 1993 para abrigar algumas obras e serviços do estado. Centenas de árvores robustas foram derrubadas para dar lugar a prédios públicos que poderiam ser construídos em diversos outros locais. Primeiro, a construção da CEASA. Depois, a construção de um posto do DETRAN. Em seguida, um ginásio poliesportivo cuja obra foi superfaturada e embargada logo depois e, por último, um campus da UESPI com seis cursos e seis salas de aula, uma verdadeira aberração seja do ponto de vista administrativo ou pedagógico.

Quase o mesmo destino teve o Campus da UFPI. Construído no início da década de 1990 dentro de um riacho, num terreno pantanoso, bem próximo de onde, mais tarde, seria edificado o campus da UESPI. Quando comecei a fazer faculdade, em 1993, precisávamos tirar o tênis e arregaçar as calças para transpor uns quinhentos metros de pura lama. Ainda tenho fotos e vídeos dessa aventura (para não chamar de descaso). A sorte do campus da Federal é que, nos últimos 8 anos, o governo Lula derramou dinheiro a balde para expansão das Instituições Federais de Ensino Superior. Tanto para o aumento da quantidade de cursos, quanto para ampliação das instalações. Milhões de reais, portanto, já foram enterrados dentro da lagoa da UFPI para aterro, drenagem e desvio do curso das águas. Daria para construir um prédio de 10 andares em outro local. Em Teresina, a UFPI construiu dezenas de quebra-molas e um portal na entrada do campus para conseguir gastar o dinheiro todo.

O poder público alega a ausência de espaço urbano para sediar os prédios públicos. O IFET foi parar no Pantanal. O incrível é que a Igreja Universal instalou-se facilmente em plena Praça Félix Pachêco, ocupando um espaço onde outrora funcionava o cinema da cidade. O grupo Carvalho parece não ter tido tanta dificuldade para construir seu supermercado em frente à rodoviária. Pascoal Silva não demorou a encontrar espaço para construir um posto de gasolina, hotel e ampla área de estacionamento em frente ao DNIT. É bem verdade que os terrenos mais próximos do centro custam bem mais caro. Mas será que o nosso povo não merece serviços públicos eficientes e mais próximos de onde moram? E quem disse que os terrenos doados ou adquiridos em locais inadequados representam economia para os cofres públicos. O campus da UFPI que o diga.

Voltando à UESPI, o prédio inicial não possuía estrutura para abrigar sequer uma creche, mas nele foi instalado, com pomposa festa, um campus universitário. E a cada vinda de Mão Santa a Picos era assinada uma autorização para criação de um novo curso. Não demorou muito para todos perceberem o óbvio: o espaço era insuficiente para acomodar a quantidade de alunos. Eis que a sábia equipe do governo do Piauí resolveu reformar um prédio abandonado no cafundó do Judas onde antes funcionava o SESI para servir de novo campus da UESPI. Região desabitada, fora da zona urbana da cidade em meio ao escuro e ao desolamento. De animador mesmo, só havia um motel em frente. Para lá foram "banidos" os cursos tidos pelo governo como de “terceira categoria”, ficando os cursos da elite, obviamente, mais próximos da civilização.

A UESPI era, no governo de Mão Santa, uma fábrica de fazer voto. Com mais de dois mil professores, apenas 100 eram efetivos, os outros eram “temporários”. Um verdadeiro cabide de emprego. E quem não lembra dos escândalos do curso de medicina. Os filhos da elite faziam vestibulares em universidades privadas pelo Brasil afora e logo em seguida “ganhavam” a transferência para a UESPI. Entravam 40 alunos para o Curso de Direito pelo Vestibular e na formatura havia 120 concludentes. Era o milagre da multiplicação, em todos os sentidos! Não havia dotação orçamentária para dar suporte à UESPI e os alunos pagavam taxas e mensalidades exorbitantes.

Entra o governo do PT em 2003. A turma de dinossauros começa a se aproximar de Wellington. Era a velha estratégia: “Quando não se consegue vencer o inimigo, junte-se a ele”. Jônathas recebe de presente a Superintendência de Ciência e Tecnologia. Fernando Monteiro, a Secretaria de Defesa Civil. Warton, o eterno suporte de Zé Néri, vira líder do governo (quem diria!!!) e Kleber, que entrou na Assembleia junto com a Proclamação da República, passa a ser o Conselheiro-mor do governador. Aliás, um grande amigo me fez outro dia uma afirmação pitoresca: “Wellington Dias realizou a incrível façanha de destruir e ressuscitar as oligarquias do Piauí”. Pois bem, sabendo da bomba relógio que era a UESPI, Kleber convence Wellington a “prestigiar” alguém do PT com a direção da mesma e, sorrateiramente, sugere entregar o presente de grego à Oneide Rocha. Era um plano muito bem bolado para aniquilar o PT de Picos e abrir espaço para o PMDB na cidade. O PT engoliu a isca direitinho.

Sem dotação orçamentária suficiente para gerir a Instituição, Oneide passa a assumir aquele que seria o mais contraditório discurso de toda a sua vida política: a manutenção da cobrança de taxas numa universidade pública. Como não pertencia ao corpo docente da instituição, enfrentou toda sorte de hostilidades até, finalmente, desgastada, entregar o cargo. Havia se consolidado, no entanto, a eleição direta para reitor, um marco histórico na trajetória da UESPI. Somente nos anos de 2003 e 2004 foram contratados, através de concurso público, 284 novos professores efetivos para a universidade, além de imenso investimento na qualificação dos mesmos e instituição de um plano de carreira, cujos salários, em alguns casos, chegam a ser superiores ao dos professores da UFPI. A área dos recursos humanos estava consolidada.

Diversos cursos com pouca procura foram cancelados, possibilitando um investimento maior em outros setores. A UESPI parecia estar fazendo sua lição de casa. O problema do campus de Picos, no entanto, aparece como o mais gritante erro da gestão da UESPI nos últimos 20 anos. É inaceitável que uma cidade do porte da nossa, com a segunda maior arrecadação de impostos do estado, com o maior entroncamento rodoviário do Nordeste, polo de uma microrregião com uma população de 500 mil habitantes, não tenha um prédio digno onde possa funcionar a Universidade Estadual. Tal fato revela a inércia de nossos representantes políticos e a pouca atenção dada por sucessivos governos à nossa querida cidade modelo.

É preciso mobilização da sociedade picoense, encabeçada, sobretudo, pelos servidores e alunos da UESPI, principais prejudicados com essa situação. Se o povo egípcio conseguiu derrubar uma ditadura sanguinária enraizada há 30 anos, certamente haveremos de derrubar a insensatez de um governo que fecha os olhos para a educação de nosso povo.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

What A Wonderful World

Louis Armstrong

I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I say to myself
What a wonderful world
I see skies of blue and clouds of white
Bright sunny days, dark sacred nights
And I think to myself
What a wonderful world
The colors of the rainbow are so pretty in the skies
Are also on the faces of people walking by
I see friends shaking hands saying
How do you do?
They´re really saying
I love you
I see babies cry, I watch them grow
They´ll learn much more than I´ll ever know
And I think to myself
What a wonderful world
Yes, I think to myself
What a wonderful world
And I say to myself
What a wonderful world

http://www.youtube.com/watch?v=4NPc7Y829dE&feature=related

domingo, 6 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Quem elegeu Dilma?

Será que foi o Nordeste que deu a vitória de Dilma?

Antes de responder à pergunta, tome seu tempo e leia estes comentários pós-eleição:





A essa altura você já deve ter entendido o motivo desses ataques de xenofobia. Mas como começou? O que foi o catalizador de tudo isso?

Tudo aconteceu por causa de figuras como esta, amplamente divulgadas pela imprensa:



Sim, se dependesse da Região Nordeste, Serra não teria a mínima chance. Mas acontece que, nestas eleições, se você analisar os resultados por região, vai ver que:

No Sul:
Serra ganhou por 7,78% dos votos.

No "Sudeste Maravilha":
Dilma ganhou por 3,76%; graças ao Rio de Janeiro e a Minas Gerais, estados em que Dilma teve uma vantagem na casa dos 20%!
No Espírito Santo, porém, deu empate!
E em São Paulo, o centro do universo, casa de tantos mandatos de direita, Serra não conseguiu nem mesmo 10% de vantagem!

No Centro-Oeste:
Empate!
Rigorosamente, Serra ganhou por 1,84%.

No Norte:
Dilma ganhou por 14,86%.

E no nosso Nordeste amado e odiado por tantos:
Dilma ganhou por avassaladores 41,16%.

Tudo isso está resumido neste quadro:



Números à parte, vamos fazer a vontade dos sudestinos e remover o Nordeste do Brasil. O que aconteceria?



Seriam 26 milhões de votos válidos a menos. E o resultado das eleições:



Oxente, deu Dilma de novo! Como pode? Deve ser por causa do pessoal lá do Norte, né? Então vamos tirar o Norte também:



Eis o sonho de grande parte dos sudestinos. Um Brasil sem Norte/Nordeste!

Agora sim, vamos ao resultado das eleições. Está tudo nas mãos deles:



Mas deu Dilma de novo! E agora, quem explica?

Pergunte aos moleques do Tuíter (sic). O que será que eles diriam?

Provavelmente seria algo nas linhas de: "É por causa dos imigrantes do Norte/Nordeste que votam aqui no Sul/Sudeste".

Raciocínio incorreto. Pois mesmo que todos os migrantes nordestinos tenham votado em Dilma (100% em Dilma, o que é uma hipótese extremamente fantasiosa), o número de sudestinos nativos morando na região é muito maior. Prevaleceu portanto a vontade deles, os nativos, e foi por pequeníssima diferença que Dilma venceu.

Posto isso, ao invés de propor a independência do Sul/Sudeste, os referidos xenófobos deveriam primeiro checar os números e decidir o que fazer com metade de seus conterrâneos. Afinal, há mais eleitores de Dilma nativos de lá (S/SE) do que nativos daqui (N/NE).


Um abraço,
Onildo Ferraz
Pernambucano

Fontes:
http://kioshi.blogspot.com/2010/11/xenofobia-no-twitter-contra-nordestinos.html
http://placar.eleicoes.uol.com.br/2010/2turno/
http://www.clicrbs.com.br/eleicoes/2010/apuracao/2turno/apuracao.html
http://oglobo.globo.com/pais/eleicoes2010/apuracao/
http://politica.estadao.com.br/eleicoes-2010/apuracao-segundo-turno/?estadual=br&federal=br

O monstro ecológico



Era uma tarde de domingo no centro de Picos. Os restos da feira livre do dia anterior alastravam as ruas principais da cidade. Cascas de banana, caixas de ovo, chifres de boi, pedaços de jornal... Parecia que um furacão havia destroçado tudo. Nas imediações do mercado público, um cachorro esguio arrastava uma tripa pela Avenida Getúlio Vargas, disputando o troféu com oito urubus famintos. As ruas desertas mais pareciam uma velha cidade de faroeste abandonada.

A faxineira da Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios varria alegremente o pátio que, dentro em breve, receberia os fiéis para a missa das sete quando uma imensa luz prateada cruzou os céus da cidade, circulou a torre da igreja e, em movimentos estranhos, tipo solavancos de carro velho que não quer pegar, aterrissou no meio do calçamento da Praça Justino Luz.

Enquanto a luz se apagava, um ser esquisito apareceu no topo da parafernália. Tinha a cabeça achatada e duas enormes orelhas. A pele recoberta por uma escama espessa e brilhante parecia assumir as cores do ambiente por onde passava. Os olhos grandes e salientes se movimentavam no rosto ao ponto de, por vezes, um ficar sobre o outro. Começou a girar a cabeça vendo o que havia em volta. Emitia sons estranhos, fazia movimentos constantes, parecia indignado com a sujeira que rodeava seu moderníssimo tamborzinho voador.

De repente, começou a girar o corpo a uma grande velocidade. Uma massa de ar rodopiou por entre os detritos e, em pouco tempo, tudo estava limpinho. O lixo fora agrupado em diversos blocos, de acordo com a sua natureza, formando esculturas lindíssimas.

Uma grande multidão já se aglomerava ao redor da cena. O medo inicial dava lugar à cordialidade, dada a boa ação praticada pelo monstrengo. Seu Adelson, pipoqueiro, aproximou-se da figura estranha com certa cautela e perguntou: “Quem é você”? De imediato a criatura retribuiu a indagação com outra semelhante e tom cavernoso: “Quem é você”? Parecia que havia ressoado uma enorme panela acústica.

O monstro estendeu a mão cumprimentando seu Adelson, aproximou-se do moço segurando-o pela cintura. Num impulso, os dois subiram pelos ares. A criatura vislumbrava espantada a sujeira do Rio Guaribas, o lixo hospitalar, os esgotos a céu aberto, o bando de urubus circulando. Enquanto isso conversava com Adelson demonstrando grande habilidade no aprendizado de nossa língua.

Aos poucos a criatura foi explicando a seu Adelson sua eterna jornada de andarilho do espaço. Incontáveis milhas percorridas preocupando-se exclusivamente com a ecologia do planeta. Lá de cima, sentiu o mau cheiro que a cidade exalava e não se conteve.

Perguntou a criatura a seu Adelson se a cidade não tinha prefeito. “Ter, tem... mas não liga!”, respondeu o pipoqueiro. O alienígena dirigiu-se então à Avenida Nossa Senhora de Fátima onde residia o prefeito romeiro. Lá chegando, adentrou o apartamento do dito cujo e, puxando-o pelo fundo das calças, atirou-o ao espaço junto com todo o lixo da cidade. Em seguida levantou voo em sua nave sob os aplausos de toda a cidade agradecida.


* Texto publicado originalmente no Jornal de Picos, versão impressa, em 16 de abril de 1999.