A arte do encontro

A vida é a arte do encontro, embora existam tantos desencontros pela vida...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Os linguistas "aceitam tudo"?


Sírio Possenti
De Campinas (SP)

De vez em quando, alguém diz que lingüistas "aceitam" tudo (isto é, que acham certa qualquer construção). Um comentário semelhante foi postado na semana passada. Achei que seria uma boa oportunidade para tentar esclarecer de novo o que fazem os linguistas.

Mas a razão para tentar ser claro não tem mais a ver apenas com aquele comentário. Surgiu uma celeuma causada por notas, comentários, entrevistas etc. a propósito de um livro de português que o MEC aprovou e que ensinaria que é certo dizer Os livro. Perguntado no espaço dos comentários, quando fiquei sabendo da questão, disse que não acreditava na matéria do IG, primeira fonte do debate. Depois tive acesso à indigitada página, no mesmo IG, e constatei que todos os que a leram a leram errado. Mas aposto que muitos a comentaram sem ler.

Vou tratar do tal "aceitam tudo", que vale também para o caso do livro.

Primeiro: duvido que alguém encontre esta afirmação em qualquer texto de linguística. É uma avaliação simplificada, na verdade, um simulacro, da posição dos linguistas em relação a um dos tópicos de seus estudos - a questão da variação ou da diversidade interna de qualquer língua. Vale a pena insistir: de qualquer língua.

Segundo: "aceitar" é um termo completamente sem sentido quando se trata de pesquisa. Imaginem o ridículo que seria perguntar a um químico se ele aceita que o oxigênio queime, a um físico se aceita a gravitação ou a fissão, a um ornitólogo se ele aceita que um tucano tenha bico tão desproporcional, a um botânico se ele aceita o cheiro da jaca, ou mesmo a um linguista se ele aceita que o inglês não tenha gênero nem subjuntivo e que o latim não tivesse artigo definido.

Não só não se pergunta se eles "aceitam", como também não se pergunta se isso tudo está certo. Como se sabe, houve época em que dizer que a Terra gira ao redor do sol dava fogueira. Semmelveis foi escorraçado pelos médicos que mandavam em Viena porque disse que todos deveriam lavar as mãos antes de certos procedimentos (por exemplo, quem viesse de uma autópsia e fosse verificar o grau de dilatação de uma parturiente). Não faltou quem dissesse "quem é ele para mandar a gente lavar as mãos?"

Ou seja: não se trata de aceitar ou de não aceitar nem de achar ou de não achar correto que as pessoas digam os livro. Acabo de sair de uma fila de supermercado e ouvi duas lata, dez real, três quilo a dar com pau. Eu deveria mandar esses consumidores calar a boca? Ora! Estávamos num caixa de supermercado, todos de bermuda e chinelo! Não era um congresso científico, nem um julgamento do Supremo!

Um linguista simplesmente "anota" os dados e tenta encontrar uma regra, isto é, uma regularidade, uma lei (não uma ordem, um mandato).

O caso é manjado: nesta variedade do português, só há marca de plural no elemento que precede o nome - artigo ou numeral (os livro, duas lata, dez real, três quilo). Se houver mais de dois elementos, a complexidade pode ser maior (meus dez livro, os meus livro verde etc.). O nome permanece invariável. O linguista vê isso, constata isso. Não só na fila do supermercado, mas também em documentos da Torre do Tombo anteriores a Camões. Portanto, mesmo na língua escrita dos sábios de antanho.

O linguista também constata the books no inglês, isto é, que não há marca de plural no artigo, só no nome, como se o inglês fosse uma espécie de avesso do português informal ou popular. O linguista aceita isso? Ora, ele não tem alternativa! É um dado, é um fato, como a combustão, a gravitação, o bico do tucano ou as marés. O linguista diz que a escola deve ensinar formas como os livro? Esse é outro departamento, ao qual volto logo.

Faço uma digressão para dar um exemplo de regra, porque sei que é um conceito problemático. Se dizemos "as cargas", a primeira sílaba desta sequência é "as". O "s" final é surdo (as cordas vocais não vibram para produzir o "s"). Se dizemos "as gatas", a primeira sílaba é a "mesma", mas nós pronunciamos "az" - com as cordas vocais vibrando para produzir o "z". Por que dizemos um "z" neste caso? Porque a primeira consoante de "gatas" é sonora, e, por isso, a consoante que a antecede também se sonoriza. Não acredita? Vá a um laboratório e faça um teste. Ou, o que é mais barato, ponha os dedos na sua garganta, diga "as gatas" e perceberá a vibração. Tem mais: se dizemos "as asas", não só dizemos um "z" no final de "as", como também reordenamos as sílabas: dizemos as.ga.tas e as.ca.sas, mas dizemos a.sa.sas ("as" se dividiu, porque o "a" da palavra seguinte puxou o "s/z" para si). Dividimos "asas" em "a.sas", mas dividimos "as asas" em a.sa.sas.

Volto ao tema do linguista que aceitaria tudo! Para quem só teve aula de certo / errado e acha que isso é tudo, especialmente se não tiver nenhuma formação histórica que lhe permitiria saber que o certo de agora pode ter sido o errado de antes, pode ser difícil entender que o trabalho do linguista é completamente diferente do trabalho do professor de português.

Não "aceitar" construções como as acima mencionadas ou mesmo algumas mais "chocantes" é, para um linguista, o que seria para um botânico não "aceitar" uma gramínea. O que não significa que o botânico paste.

Proponho o seguinte experimento mental: suponha que um descendente seu nasça no ano 2500. Suponha que o português culto de então inclua formas como "A casa que eu moro nela mais os dois armário vale 300 cabral" (acho que não será o caso, mas é só um experimento). Seu descendente nunca saberá que fala uma língua errada. Saberá, talvez (se estudar mais do que você), que um ancestral dele falava formas arcaicas do português, como 300 cabrais.

Outro tema: o linguista diz que a escola deve ensinar a dizer Os livro? Não. Nenhum linguista propõe isso em lugar nenhum (desafio os que têm opinião contrária a fornecer uma referência). Aliás, isso não foi dito no tal livro, embora todos os comentaristas digam que leram isso.

O linguista não propõe isso por duas razões: a) as pessoas já sabem falar os livro, não precisam ser ensinadas (observe-se que ninguém falao livros, o que não é banal); b) ele acha - e nisso tem razão - que é mais fácil que alguém aprenda os livros se lhe dizem que há duas formas de falar do que se lhe dizem que ele é burro e não sabe nem falar, que fala tudo errado. Há muitos relatos de experiências bem sucedidas porque adotaram uma postura diferente em relação à fala dos alunos.

Enfim, cada campo tem seus Bolsonaros. Merecidos ou não.

PS 1 - todos os comentaristas (colunistas de jornais, de blogs e de TVs) que eu ouvi leram errado uma página (sim, era só UMA página!) do livro que deu origem à celeuma na semana passada. Minha pergunta é: se eles defendem a língua culta como meio de comunicação, como explicam que leram tão mal um texto escrito em língua culta? É no teste PISA que o Brasil sempre tem fracassado, não é? Pois é, este foi um teste de leitura. Nosso jornalismo seria reprovado.

PS 2 - Alexandre Garcia começou um comentário irado sobre o livro em questão assim, no Bom Dia, Brasil de terça-feira: "quando eu TAVA na escola...". Uma carta de leitor que criticava a forma "os livro" dizia "ensinam os alunos DE que se pode falar errado". Uma professora entrevistada que criticou a doutrina do livro disse "a língua é ONDE nos une" e Monforte perguntou "Onde FICA as leis de concordância?". Ou seja: eles abonaram a tese do livro que estavam criticando. Só que, provavelmente, acham que falam certinho! Não se dão conta do que acontece com a língua DELES mesmos!!

Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5137669-EI8425,00-Aceitam+tudo.html

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa


Marcos Bagno
Universidade de Brasília


Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.

Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).

Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.

Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito.

E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.

Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantado para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.

A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.

Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).

Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).

O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?

Fonte: http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=745

domingo, 15 de maio de 2011

CATAPHORA: Convite para defesa de Dissertação do Mestrado em Letras

Queridos Lafity e Digenário,
Parabéns pela conclusão do trabalho. A defesa é apenas um ritual de passagem. Tenho certeza de que o empenho, a dedicação e a competência de vocês prevalecerão sempre! Vocês representam o futuro da Educação do Piauí e do Brasil. Portanto, continuem subindo, não somente para ser vistos, mas, sobretudo, para VER MELHOR! Farei o possível para estar presente. Grande abraço, João Benvindo.

terça-feira, 3 de maio de 2011

1 ano sem Firmina...


Hoje faz 1 ano que perdemos nossa querida amiga Firmina. Acordei cedinho e fiquei lembrando de todas as nossas brincadeiras, viagens, aventuras.

Na foto acima, feita em Agosto de 1993, estávamos participando do Congresso Nacional da UNE em Goiânia. Um ônibus lotado com estudantes da UFPI. Lembro-me de suas brincadeiras, palhaçadas, anedotas. Ninguém conseguia dormir com ela por perto. Nem no ônibus, nem nos alojamentos. Dormimos uma semana no chão duro das salas de aula da Universidade Federal de Goiás.

Em outubro de 2009 eu estive em Picos participando da I EXPOLIP - Exposição Literária de Picos. Foi a última vez que nos vimos. Na sua eterna irreverência, ela disparou: "Joãozinho, tua agora só quer ser doutor..." Rimos muito e nos despedimos.

Nos últimos 12 meses o céu, com certeza, ficou mais alegre. Minha queridinha amiga, que Deus e os anjos do céu te acompanhem cheios de alegria e júbilo e que você continue a nos acompanhar com o teu sorriso e com a tua alegria. A amizade verdadeira dura para sempre!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O caçador de ossos


Existe o osso calcâneo, o osso compacto, o osso curto, o osso dérmico e o osso do quadril. Também existem os ossos pneumáticos, cheios de ar, que ajudam as aves a voar. Mas isso eu só vim aprender depois. Existe até o “osso de correr” ou como dizíamos na época, “o osso corredor”. Esse era o que eu mais gostava. Era robusto, rijo e, o mais importante: pesado.

Até hoje não sei ao certo qual era o destino daquela montanha de ossos que semanalmente se formava num terreno baldio, na esquina entre a rua Pedro Evêncio e a travessa Castelo Branco, no bairro Junco, periferia de Picos. A maior parte da ossada era bovina. Resíduos de um cardápio limitado que, após saciar a fome, iam parar no monturo. Não havia coleta de lixo. Outra parte era composta pela carcaça de animais que morriam atropelados ou vitimados por alguma doença. Eram jogados ao léu, tinham a carne e as vísceras devoradas pelos urubus e os ossos que sobravam, transformavam-se em ganha pão numa espécie de cadeia alimentar. Eram acondicionados em pequenos sacos sujos e rotos. Uma legião de mãozinhas pequenas se encarregava de fazer o trabalho, pelo qual recebiam o que hoje equivaleria a, aproximadamente, dez centavos por quilo.

Se por um lado o destino de toda aquela ossaria era desconhecido, por outro, não faltavam especulações: “é para fazer botões, pentes e outros artefatos”, diziam alguns; “é para fazer adubo”, diziam outros. Mas para Dona Maria Benzedeira não havia dúvidas: “é para fazer bolacha, meu filho. Daquelas recheadas”. Não sei se sua pressuposição se dava por ignorância ou por estratégia de economia, afinal, a meninada era viciada em biscoito recheado, iguaria saboreada em momentos raros. O comum mesmo era a bolacha Maria. Embalada em caixas de papelão com dois quilos, tinha baixo custo, tornado-se mais acessível. Cada família, com uma média de quatro filhos, comprava uma caixa por mês. O fato é que durante anos fiquei enojado e não havia acordo para que eu comesse uma bolacha recheada. Ficava imaginando os ossos mal cheirosos de carniças sendo triturados, virando pó e, o tutano, misturado com açúcar derretido, se transformando em recheio.

Dia a dia, sol a pino, pés descalços, disputávamos osso a osso como se fosse uma gincana. Nada de tristeza. Era como se estivéssemos num parque empinando pipa (soltando papagaio, como chamávamos) ou jogando futebol. Na verdade, era um jogo. Quem encontrasse mais, ganhava mais pontos, ou seja, mais dinheiro. Era o nosso videogame da vida real. Materiais como ferro e alumínio também poderiam ser vendidos, até por um preço melhor, mas era mais difícil de achar.

Certo dia, nas imediações da fábrica de coca-cola, fiz uma grande descoberta. Era um enorme tacho, uma espécie de vazo de metal, largo e de pouca fundura, com asas e algumas avarias. Geralmente utilizado em festas para preparar grande quantidade de alimentos, havia sido abandonado por alguém, no meio do mato, próximo a uma casinha de taipa. Fiquei observando e calculando o peso. Aproximadamente uns dez quilos de ferro. O dobro do preço do osso. Uma fortuna. Mas como carregaria tudo aquilo dentro de um saco? Talvez um carrinho de mão ajudasse, mas, meu pai, certamente não o confiaria a mim. Quem sabe umas pauladas o fizessem diminuir o volume, facilitando o transporte, mas era um ferro grosso e dificilmente envergaria.

Enfim, dificuldades e recompensas devidamente ponderadas, nada haveria de ser impossível para um verdadeiro caçador de tesouros. Um pequeno cordão de rede, de aproximadamente dois metros que carregara sempre comigo, dentro do bolso da calça, poderia ser a solução do problema. Eu o amarraria numa das asas do tacho e sairia puxando por uns dois ou três quilômetros. Moleza.

Ao tentar executar o primeiro passo do plano, porém, uma surpresa fatídica. Tinha uma pedra no meio do caminho, ou pior, havia uma galinha choca embaixo do tacho. Amparada pela proteção blindada, com uma pequena abertura causada pela ferrugem, estabeleceu ali sua ninhada. E existe bicho mais enfezado que uma galinha choca?

Tamanha foi a balbúrdia que despertou a atenção de toda a vizinhança. Foi aí que a coisa se complicou. Ouvi de longe a acusação fatal: “pega o ladrão de galinha!”. Era o fim de uma carreira tão prodigiosa. De caçador de tesouros, virei ladrão de galinha. Num sobressalto, larguei o tacho e disparei correndo por entre as veredas abertas em meio à jurema e ao mata-pasto. Ninguém, melhor que eu, conhecia aquele labirinto. Em questão de segundos, havia desaparecido entre os arbustos, como um caipora encantado na floresta.

Passei dias desconfiado em casa, com medo que alguém houvesse me reconhecido e fizesse uma denúncia aos meus pais. Apesar de toda pobreza e carência, roubar coisas alheias era crime inafiançável em nosso código de ética familiar e, até que eu conseguisse provar minha inocência, talvez já tivesse levado umas boas chineladas. Resolvi abandonar a profissão de caçador de ossos, de ferro, de alumínio. Tornei-me caçador de letras. É bem verdade que, vez por outra, ainda aparecem na minha vida algumas galinhas chocas, mas, apesar da balbúrdia que causam, acabam por me fazer perceber que existem outros caminhos a seguir...