A arte do encontro

A vida é a arte do encontro, embora existam tantos desencontros pela vida...

domingo, 15 de maio de 2011

CATAPHORA: Convite para defesa de Dissertação do Mestrado em Letras

Queridos Lafity e Digenário,
Parabéns pela conclusão do trabalho. A defesa é apenas um ritual de passagem. Tenho certeza de que o empenho, a dedicação e a competência de vocês prevalecerão sempre! Vocês representam o futuro da Educação do Piauí e do Brasil. Portanto, continuem subindo, não somente para ser vistos, mas, sobretudo, para VER MELHOR! Farei o possível para estar presente. Grande abraço, João Benvindo.

terça-feira, 3 de maio de 2011

1 ano sem Firmina...


Hoje faz 1 ano que perdemos nossa querida amiga Firmina. Acordei cedinho e fiquei lembrando de todas as nossas brincadeiras, viagens, aventuras.

Na foto acima, feita em Agosto de 1993, estávamos participando do Congresso Nacional da UNE em Goiânia. Um ônibus lotado com estudantes da UFPI. Lembro-me de suas brincadeiras, palhaçadas, anedotas. Ninguém conseguia dormir com ela por perto. Nem no ônibus, nem nos alojamentos. Dormimos uma semana no chão duro das salas de aula da Universidade Federal de Goiás.

Em outubro de 2009 eu estive em Picos participando da I EXPOLIP - Exposição Literária de Picos. Foi a última vez que nos vimos. Na sua eterna irreverência, ela disparou: "Joãozinho, tua agora só quer ser doutor..." Rimos muito e nos despedimos.

Nos últimos 12 meses o céu, com certeza, ficou mais alegre. Minha queridinha amiga, que Deus e os anjos do céu te acompanhem cheios de alegria e júbilo e que você continue a nos acompanhar com o teu sorriso e com a tua alegria. A amizade verdadeira dura para sempre!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O caçador de ossos


Existe o osso calcâneo, o osso compacto, o osso curto, o osso dérmico e o osso do quadril. Também existem os ossos pneumáticos, cheios de ar, que ajudam as aves a voar. Mas isso eu só vim aprender depois. Existe até o “osso de correr” ou como dizíamos na época, “o osso corredor”. Esse era o que eu mais gostava. Era robusto, rijo e, o mais importante: pesado.

Até hoje não sei ao certo qual era o destino daquela montanha de ossos que semanalmente se formava num terreno baldio, na esquina entre a rua Pedro Evêncio e a travessa Castelo Branco, no bairro Junco, periferia de Picos. A maior parte da ossada era bovina. Resíduos de um cardápio limitado que, após saciar a fome, iam parar no monturo. Não havia coleta de lixo. Outra parte era composta pela carcaça de animais que morriam atropelados ou vitimados por alguma doença. Eram jogados ao léu, tinham a carne e as vísceras devoradas pelos urubus e os ossos que sobravam, transformavam-se em ganha pão numa espécie de cadeia alimentar. Eram acondicionados em pequenos sacos sujos e rotos. Uma legião de mãozinhas pequenas se encarregava de fazer o trabalho, pelo qual recebiam o que hoje equivaleria a, aproximadamente, dez centavos por quilo.

Se por um lado o destino de toda aquela ossaria era desconhecido, por outro, não faltavam especulações: “é para fazer botões, pentes e outros artefatos”, diziam alguns; “é para fazer adubo”, diziam outros. Mas para Dona Maria Benzedeira não havia dúvidas: “é para fazer bolacha, meu filho. Daquelas recheadas”. Não sei se sua pressuposição se dava por ignorância ou por estratégia de economia, afinal, a meninada era viciada em biscoito recheado, iguaria saboreada em momentos raros. O comum mesmo era a bolacha Maria. Embalada em caixas de papelão com dois quilos, tinha baixo custo, tornado-se mais acessível. Cada família, com uma média de quatro filhos, comprava uma caixa por mês. O fato é que durante anos fiquei enojado e não havia acordo para que eu comesse uma bolacha recheada. Ficava imaginando os ossos mal cheirosos de carniças sendo triturados, virando pó e, o tutano, misturado com açúcar derretido, se transformando em recheio.

Dia a dia, sol a pino, pés descalços, disputávamos osso a osso como se fosse uma gincana. Nada de tristeza. Era como se estivéssemos num parque empinando pipa (soltando papagaio, como chamávamos) ou jogando futebol. Na verdade, era um jogo. Quem encontrasse mais, ganhava mais pontos, ou seja, mais dinheiro. Era o nosso videogame da vida real. Materiais como ferro e alumínio também poderiam ser vendidos, até por um preço melhor, mas era mais difícil de achar.

Certo dia, nas imediações da fábrica de coca-cola, fiz uma grande descoberta. Era um enorme tacho, uma espécie de vazo de metal, largo e de pouca fundura, com asas e algumas avarias. Geralmente utilizado em festas para preparar grande quantidade de alimentos, havia sido abandonado por alguém, no meio do mato, próximo a uma casinha de taipa. Fiquei observando e calculando o peso. Aproximadamente uns dez quilos de ferro. O dobro do preço do osso. Uma fortuna. Mas como carregaria tudo aquilo dentro de um saco? Talvez um carrinho de mão ajudasse, mas, meu pai, certamente não o confiaria a mim. Quem sabe umas pauladas o fizessem diminuir o volume, facilitando o transporte, mas era um ferro grosso e dificilmente envergaria.

Enfim, dificuldades e recompensas devidamente ponderadas, nada haveria de ser impossível para um verdadeiro caçador de tesouros. Um pequeno cordão de rede, de aproximadamente dois metros que carregara sempre comigo, dentro do bolso da calça, poderia ser a solução do problema. Eu o amarraria numa das asas do tacho e sairia puxando por uns dois ou três quilômetros. Moleza.

Ao tentar executar o primeiro passo do plano, porém, uma surpresa fatídica. Tinha uma pedra no meio do caminho, ou pior, havia uma galinha choca embaixo do tacho. Amparada pela proteção blindada, com uma pequena abertura causada pela ferrugem, estabeleceu ali sua ninhada. E existe bicho mais enfezado que uma galinha choca?

Tamanha foi a balbúrdia que despertou a atenção de toda a vizinhança. Foi aí que a coisa se complicou. Ouvi de longe a acusação fatal: “pega o ladrão de galinha!”. Era o fim de uma carreira tão prodigiosa. De caçador de tesouros, virei ladrão de galinha. Num sobressalto, larguei o tacho e disparei correndo por entre as veredas abertas em meio à jurema e ao mata-pasto. Ninguém, melhor que eu, conhecia aquele labirinto. Em questão de segundos, havia desaparecido entre os arbustos, como um caipora encantado na floresta.

Passei dias desconfiado em casa, com medo que alguém houvesse me reconhecido e fizesse uma denúncia aos meus pais. Apesar de toda pobreza e carência, roubar coisas alheias era crime inafiançável em nosso código de ética familiar e, até que eu conseguisse provar minha inocência, talvez já tivesse levado umas boas chineladas. Resolvi abandonar a profissão de caçador de ossos, de ferro, de alumínio. Tornei-me caçador de letras. É bem verdade que, vez por outra, ainda aparecem na minha vida algumas galinhas chocas, mas, apesar da balbúrdia que causam, acabam por me fazer perceber que existem outros caminhos a seguir...

quinta-feira, 24 de março de 2011

O tempo


A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Mário Quintana.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A novela da UESPI em Picos



A situação do campus da UESPI de Picos é realmente estarrecedora e parece ter raízes históricas, a começar pelo local de instalação do mesmo na década de 1990 em espaço onde funcionava o antigo Campus Avançado da Universidade Federal de Goiás cuja principal atividade era o Projeto Rondon. Tratava-se de um terreno de, aproximadamente, vinte mil metros quadrados localizado no bairro Junco, onde havia uma sede administrativa, quadras de esporte, laboratórios e uma imensa área verde com árvores frondosas.

Quando da minha gestão na presidência da Associação de Moradores do Bairro Junco, no período de 1991 a 1993, apresentei vários projetos à Prefeitura de Picos e ao governo do estado, no sentido de transformar aquela área num Parque Municipal com trilhas, praças, lagos, espaços para práticas de esporte etc. Seria um investimento pequeno tendo em vista que grande parte da infra-estrutura já estava pronta e a área verde já existia. Picos passaria a ter, assim, um espaço ecológico para descanso e lazer, destoando um pouco da lama e da poeira tão características, infelizmente, da nossa cidade.

Inesperadamente e de forma irracional, esse espaço passou a ser “loteado” a partir de 1993 para abrigar algumas obras e serviços do estado. Centenas de árvores robustas foram derrubadas para dar lugar a prédios públicos que poderiam ser construídos em diversos outros locais. Primeiro, a construção da CEASA. Depois, a construção de um posto do DETRAN. Em seguida, um ginásio poliesportivo cuja obra foi superfaturada e embargada logo depois e, por último, um campus da UESPI com seis cursos e seis salas de aula, uma verdadeira aberração seja do ponto de vista administrativo ou pedagógico.

Quase o mesmo destino teve o Campus da UFPI. Construído no início da década de 1990 dentro de um riacho, num terreno pantanoso, bem próximo de onde, mais tarde, seria edificado o campus da UESPI. Quando comecei a fazer faculdade, em 1993, precisávamos tirar o tênis e arregaçar as calças para transpor uns quinhentos metros de pura lama. Ainda tenho fotos e vídeos dessa aventura (para não chamar de descaso). A sorte do campus da Federal é que, nos últimos 8 anos, o governo Lula derramou dinheiro a balde para expansão das Instituições Federais de Ensino Superior. Tanto para o aumento da quantidade de cursos, quanto para ampliação das instalações. Milhões de reais, portanto, já foram enterrados dentro da lagoa da UFPI para aterro, drenagem e desvio do curso das águas. Daria para construir um prédio de 10 andares em outro local. Em Teresina, a UFPI construiu dezenas de quebra-molas e um portal na entrada do campus para conseguir gastar o dinheiro todo.

O poder público alega a ausência de espaço urbano para sediar os prédios públicos. O IFET foi parar no Pantanal. O incrível é que a Igreja Universal instalou-se facilmente em plena Praça Félix Pachêco, ocupando um espaço onde outrora funcionava o cinema da cidade. O grupo Carvalho parece não ter tido tanta dificuldade para construir seu supermercado em frente à rodoviária. Pascoal Silva não demorou a encontrar espaço para construir um posto de gasolina, hotel e ampla área de estacionamento em frente ao DNIT. É bem verdade que os terrenos mais próximos do centro custam bem mais caro. Mas será que o nosso povo não merece serviços públicos eficientes e mais próximos de onde moram? E quem disse que os terrenos doados ou adquiridos em locais inadequados representam economia para os cofres públicos. O campus da UFPI que o diga.

Voltando à UESPI, o prédio inicial não possuía estrutura para abrigar sequer uma creche, mas nele foi instalado, com pomposa festa, um campus universitário. E a cada vinda de Mão Santa a Picos era assinada uma autorização para criação de um novo curso. Não demorou muito para todos perceberem o óbvio: o espaço era insuficiente para acomodar a quantidade de alunos. Eis que a sábia equipe do governo do Piauí resolveu reformar um prédio abandonado no cafundó do Judas onde antes funcionava o SESI para servir de novo campus da UESPI. Região desabitada, fora da zona urbana da cidade em meio ao escuro e ao desolamento. De animador mesmo, só havia um motel em frente. Para lá foram "banidos" os cursos tidos pelo governo como de “terceira categoria”, ficando os cursos da elite, obviamente, mais próximos da civilização.

A UESPI era, no governo de Mão Santa, uma fábrica de fazer voto. Com mais de dois mil professores, apenas 100 eram efetivos, os outros eram “temporários”. Um verdadeiro cabide de emprego. E quem não lembra dos escândalos do curso de medicina. Os filhos da elite faziam vestibulares em universidades privadas pelo Brasil afora e logo em seguida “ganhavam” a transferência para a UESPI. Entravam 40 alunos para o Curso de Direito pelo Vestibular e na formatura havia 120 concludentes. Era o milagre da multiplicação, em todos os sentidos! Não havia dotação orçamentária para dar suporte à UESPI e os alunos pagavam taxas e mensalidades exorbitantes.

Entra o governo do PT em 2003. A turma de dinossauros começa a se aproximar de Wellington. Era a velha estratégia: “Quando não se consegue vencer o inimigo, junte-se a ele”. Jônathas recebe de presente a Superintendência de Ciência e Tecnologia. Fernando Monteiro, a Secretaria de Defesa Civil. Warton, o eterno suporte de Zé Néri, vira líder do governo (quem diria!!!) e Kleber, que entrou na Assembleia junto com a Proclamação da República, passa a ser o Conselheiro-mor do governador. Aliás, um grande amigo me fez outro dia uma afirmação pitoresca: “Wellington Dias realizou a incrível façanha de destruir e ressuscitar as oligarquias do Piauí”. Pois bem, sabendo da bomba relógio que era a UESPI, Kleber convence Wellington a “prestigiar” alguém do PT com a direção da mesma e, sorrateiramente, sugere entregar o presente de grego à Oneide Rocha. Era um plano muito bem bolado para aniquilar o PT de Picos e abrir espaço para o PMDB na cidade. O PT engoliu a isca direitinho.

Sem dotação orçamentária suficiente para gerir a Instituição, Oneide passa a assumir aquele que seria o mais contraditório discurso de toda a sua vida política: a manutenção da cobrança de taxas numa universidade pública. Como não pertencia ao corpo docente da instituição, enfrentou toda sorte de hostilidades até, finalmente, desgastada, entregar o cargo. Havia se consolidado, no entanto, a eleição direta para reitor, um marco histórico na trajetória da UESPI. Somente nos anos de 2003 e 2004 foram contratados, através de concurso público, 284 novos professores efetivos para a universidade, além de imenso investimento na qualificação dos mesmos e instituição de um plano de carreira, cujos salários, em alguns casos, chegam a ser superiores ao dos professores da UFPI. A área dos recursos humanos estava consolidada.

Diversos cursos com pouca procura foram cancelados, possibilitando um investimento maior em outros setores. A UESPI parecia estar fazendo sua lição de casa. O problema do campus de Picos, no entanto, aparece como o mais gritante erro da gestão da UESPI nos últimos 20 anos. É inaceitável que uma cidade do porte da nossa, com a segunda maior arrecadação de impostos do estado, com o maior entroncamento rodoviário do Nordeste, polo de uma microrregião com uma população de 500 mil habitantes, não tenha um prédio digno onde possa funcionar a Universidade Estadual. Tal fato revela a inércia de nossos representantes políticos e a pouca atenção dada por sucessivos governos à nossa querida cidade modelo.

É preciso mobilização da sociedade picoense, encabeçada, sobretudo, pelos servidores e alunos da UESPI, principais prejudicados com essa situação. Se o povo egípcio conseguiu derrubar uma ditadura sanguinária enraizada há 30 anos, certamente haveremos de derrubar a insensatez de um governo que fecha os olhos para a educação de nosso povo.