A arte do encontro

A vida é a arte do encontro, embora existam tantos desencontros pela vida...

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O caçador de ossos


Existe o osso calcâneo, o osso compacto, o osso curto, o osso dérmico e o osso do quadril. Também existem os ossos pneumáticos, cheios de ar, que ajudam as aves a voar. Mas isso eu só vim aprender depois. Existe até o “osso de correr” ou como dizíamos na época, “o osso corredor”. Esse era o que eu mais gostava. Era robusto, rijo e, o mais importante: pesado.

Até hoje não sei ao certo qual era o destino daquela montanha de ossos que semanalmente se formava num terreno baldio, na esquina entre a rua Pedro Evêncio e a travessa Castelo Branco, no bairro Junco, periferia de Picos. A maior parte da ossada era bovina. Resíduos de um cardápio limitado que, após saciar a fome, iam parar no monturo. Não havia coleta de lixo. Outra parte era composta pela carcaça de animais que morriam atropelados ou vitimados por alguma doença. Eram jogados ao léu, tinham a carne e as vísceras devoradas pelos urubus e os ossos que sobravam, transformavam-se em ganha pão numa espécie de cadeia alimentar. Eram acondicionados em pequenos sacos sujos e rotos. Uma legião de mãozinhas pequenas se encarregava de fazer o trabalho, pelo qual recebiam o que hoje equivaleria a, aproximadamente, dez centavos por quilo.

Se por um lado o destino de toda aquela ossaria era desconhecido, por outro, não faltavam especulações: “é para fazer botões, pentes e outros artefatos”, diziam alguns; “é para fazer adubo”, diziam outros. Mas para Dona Maria Benzedeira não havia dúvidas: “é para fazer bolacha, meu filho. Daquelas recheadas”. Não sei se sua pressuposição se dava por ignorância ou por estratégia de economia, afinal, a meninada era viciada em biscoito recheado, iguaria saboreada em momentos raros. O comum mesmo era a bolacha Maria. Embalada em caixas de papelão com dois quilos, tinha baixo custo, tornado-se mais acessível. Cada família, com uma média de quatro filhos, comprava uma caixa por mês. O fato é que durante anos fiquei enojado e não havia acordo para que eu comesse uma bolacha recheada. Ficava imaginando os ossos mal cheirosos de carniças sendo triturados, virando pó e, o tutano, misturado com açúcar derretido, se transformando em recheio.

Dia a dia, sol a pino, pés descalços, disputávamos osso a osso como se fosse uma gincana. Nada de tristeza. Era como se estivéssemos num parque empinando pipa (soltando papagaio, como chamávamos) ou jogando futebol. Na verdade, era um jogo. Quem encontrasse mais, ganhava mais pontos, ou seja, mais dinheiro. Era o nosso videogame da vida real. Materiais como ferro e alumínio também poderiam ser vendidos, até por um preço melhor, mas era mais difícil de achar.

Certo dia, nas imediações da fábrica de coca-cola, fiz uma grande descoberta. Era um enorme tacho, uma espécie de vazo de metal, largo e de pouca fundura, com asas e algumas avarias. Geralmente utilizado em festas para preparar grande quantidade de alimentos, havia sido abandonado por alguém, no meio do mato, próximo a uma casinha de taipa. Fiquei observando e calculando o peso. Aproximadamente uns dez quilos de ferro. O dobro do preço do osso. Uma fortuna. Mas como carregaria tudo aquilo dentro de um saco? Talvez um carrinho de mão ajudasse, mas, meu pai, certamente não o confiaria a mim. Quem sabe umas pauladas o fizessem diminuir o volume, facilitando o transporte, mas era um ferro grosso e dificilmente envergaria.

Enfim, dificuldades e recompensas devidamente ponderadas, nada haveria de ser impossível para um verdadeiro caçador de tesouros. Um pequeno cordão de rede, de aproximadamente dois metros que carregara sempre comigo, dentro do bolso da calça, poderia ser a solução do problema. Eu o amarraria numa das asas do tacho e sairia puxando por uns dois ou três quilômetros. Moleza.

Ao tentar executar o primeiro passo do plano, porém, uma surpresa fatídica. Tinha uma pedra no meio do caminho, ou pior, havia uma galinha choca embaixo do tacho. Amparada pela proteção blindada, com uma pequena abertura causada pela ferrugem, estabeleceu ali sua ninhada. E existe bicho mais enfezado que uma galinha choca?

Tamanha foi a balbúrdia que despertou a atenção de toda a vizinhança. Foi aí que a coisa se complicou. Ouvi de longe a acusação fatal: “pega o ladrão de galinha!”. Era o fim de uma carreira tão prodigiosa. De caçador de tesouros, virei ladrão de galinha. Num sobressalto, larguei o tacho e disparei correndo por entre as veredas abertas em meio à jurema e ao mata-pasto. Ninguém, melhor que eu, conhecia aquele labirinto. Em questão de segundos, havia desaparecido entre os arbustos, como um caipora encantado na floresta.

Passei dias desconfiado em casa, com medo que alguém houvesse me reconhecido e fizesse uma denúncia aos meus pais. Apesar de toda pobreza e carência, roubar coisas alheias era crime inafiançável em nosso código de ética familiar e, até que eu conseguisse provar minha inocência, talvez já tivesse levado umas boas chineladas. Resolvi abandonar a profissão de caçador de ossos, de ferro, de alumínio. Tornei-me caçador de letras. É bem verdade que, vez por outra, ainda aparecem na minha vida algumas galinhas chocas, mas, apesar da balbúrdia que causam, acabam por me fazer perceber que existem outros caminhos a seguir...