A arte do encontro

A vida é a arte do encontro, embora existam tantos desencontros pela vida...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Quem elegeu Dilma?

Será que foi o Nordeste que deu a vitória de Dilma?

Antes de responder à pergunta, tome seu tempo e leia estes comentários pós-eleição:





A essa altura você já deve ter entendido o motivo desses ataques de xenofobia. Mas como começou? O que foi o catalizador de tudo isso?

Tudo aconteceu por causa de figuras como esta, amplamente divulgadas pela imprensa:



Sim, se dependesse da Região Nordeste, Serra não teria a mínima chance. Mas acontece que, nestas eleições, se você analisar os resultados por região, vai ver que:

No Sul:
Serra ganhou por 7,78% dos votos.

No "Sudeste Maravilha":
Dilma ganhou por 3,76%; graças ao Rio de Janeiro e a Minas Gerais, estados em que Dilma teve uma vantagem na casa dos 20%!
No Espírito Santo, porém, deu empate!
E em São Paulo, o centro do universo, casa de tantos mandatos de direita, Serra não conseguiu nem mesmo 10% de vantagem!

No Centro-Oeste:
Empate!
Rigorosamente, Serra ganhou por 1,84%.

No Norte:
Dilma ganhou por 14,86%.

E no nosso Nordeste amado e odiado por tantos:
Dilma ganhou por avassaladores 41,16%.

Tudo isso está resumido neste quadro:



Números à parte, vamos fazer a vontade dos sudestinos e remover o Nordeste do Brasil. O que aconteceria?



Seriam 26 milhões de votos válidos a menos. E o resultado das eleições:



Oxente, deu Dilma de novo! Como pode? Deve ser por causa do pessoal lá do Norte, né? Então vamos tirar o Norte também:



Eis o sonho de grande parte dos sudestinos. Um Brasil sem Norte/Nordeste!

Agora sim, vamos ao resultado das eleições. Está tudo nas mãos deles:



Mas deu Dilma de novo! E agora, quem explica?

Pergunte aos moleques do Tuíter (sic). O que será que eles diriam?

Provavelmente seria algo nas linhas de: "É por causa dos imigrantes do Norte/Nordeste que votam aqui no Sul/Sudeste".

Raciocínio incorreto. Pois mesmo que todos os migrantes nordestinos tenham votado em Dilma (100% em Dilma, o que é uma hipótese extremamente fantasiosa), o número de sudestinos nativos morando na região é muito maior. Prevaleceu portanto a vontade deles, os nativos, e foi por pequeníssima diferença que Dilma venceu.

Posto isso, ao invés de propor a independência do Sul/Sudeste, os referidos xenófobos deveriam primeiro checar os números e decidir o que fazer com metade de seus conterrâneos. Afinal, há mais eleitores de Dilma nativos de lá (S/SE) do que nativos daqui (N/NE).


Um abraço,
Onildo Ferraz
Pernambucano

Fontes:
http://kioshi.blogspot.com/2010/11/xenofobia-no-twitter-contra-nordestinos.html
http://placar.eleicoes.uol.com.br/2010/2turno/
http://www.clicrbs.com.br/eleicoes/2010/apuracao/2turno/apuracao.html
http://oglobo.globo.com/pais/eleicoes2010/apuracao/
http://politica.estadao.com.br/eleicoes-2010/apuracao-segundo-turno/?estadual=br&federal=br

O monstro ecológico



Era uma tarde de domingo no centro de Picos. Os restos da feira livre do dia anterior alastravam as ruas principais da cidade. Cascas de banana, caixas de ovo, chifres de boi, pedaços de jornal... Parecia que um furacão havia destroçado tudo. Nas imediações do mercado público, um cachorro esguio arrastava uma tripa pela Avenida Getúlio Vargas, disputando o troféu com oito urubus famintos. As ruas desertas mais pareciam uma velha cidade de faroeste abandonada.

A faxineira da Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios varria alegremente o pátio que, dentro em breve, receberia os fiéis para a missa das sete quando uma imensa luz prateada cruzou os céus da cidade, circulou a torre da igreja e, em movimentos estranhos, tipo solavancos de carro velho que não quer pegar, aterrissou no meio do calçamento da Praça Justino Luz.

Enquanto a luz se apagava, um ser esquisito apareceu no topo da parafernália. Tinha a cabeça achatada e duas enormes orelhas. A pele recoberta por uma escama espessa e brilhante parecia assumir as cores do ambiente por onde passava. Os olhos grandes e salientes se movimentavam no rosto ao ponto de, por vezes, um ficar sobre o outro. Começou a girar a cabeça vendo o que havia em volta. Emitia sons estranhos, fazia movimentos constantes, parecia indignado com a sujeira que rodeava seu moderníssimo tamborzinho voador.

De repente, começou a girar o corpo a uma grande velocidade. Uma massa de ar rodopiou por entre os detritos e, em pouco tempo, tudo estava limpinho. O lixo fora agrupado em diversos blocos, de acordo com a sua natureza, formando esculturas lindíssimas.

Uma grande multidão já se aglomerava ao redor da cena. O medo inicial dava lugar à cordialidade, dada a boa ação praticada pelo monstrengo. Seu Adelson, pipoqueiro, aproximou-se da figura estranha com certa cautela e perguntou: “Quem é você”? De imediato a criatura retribuiu a indagação com outra semelhante e tom cavernoso: “Quem é você”? Parecia que havia ressoado uma enorme panela acústica.

O monstro estendeu a mão cumprimentando seu Adelson, aproximou-se do moço segurando-o pela cintura. Num impulso, os dois subiram pelos ares. A criatura vislumbrava espantada a sujeira do Rio Guaribas, o lixo hospitalar, os esgotos a céu aberto, o bando de urubus circulando. Enquanto isso conversava com Adelson demonstrando grande habilidade no aprendizado de nossa língua.

Aos poucos a criatura foi explicando a seu Adelson sua eterna jornada de andarilho do espaço. Incontáveis milhas percorridas preocupando-se exclusivamente com a ecologia do planeta. Lá de cima, sentiu o mau cheiro que a cidade exalava e não se conteve.

Perguntou a criatura a seu Adelson se a cidade não tinha prefeito. “Ter, tem... mas não liga!”, respondeu o pipoqueiro. O alienígena dirigiu-se então à Avenida Nossa Senhora de Fátima onde residia o prefeito romeiro. Lá chegando, adentrou o apartamento do dito cujo e, puxando-o pelo fundo das calças, atirou-o ao espaço junto com todo o lixo da cidade. Em seguida levantou voo em sua nave sob os aplausos de toda a cidade agradecida.


* Texto publicado originalmente no Jornal de Picos, versão impressa, em 16 de abril de 1999.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Preconceito contra o nordestino



A estudante de Direito Mayara Petruso atendendo ao chamado dos tucanos, que transformaram a campanha eleitoral numa guerra entre gente limpinha e a massa fedida, principalmente a que reside no Nordeste e vive do Bolsa Família, escreveu as mensagens reproduzidas acima na noite do último dia 31 de outubro, logo após o anúncio da vitória de Dilma Roussef.

A estudante é uma típica paulistana de classe média alta. Um tipo que não gosta de estudar, adora consumir e que considera nordestino um ser inferior. Nada mais comum em almoços de domingo nos ambientes dessa elite branca paulistana do que ouvir gente falando coisas semelhantes ao que escreveu Mayara Petruso na sua conta no tuiter. Na cabeça da menina, ela não deve ter falado nada demais. Afinal, é isso que deve ouvir desde criança entre familiares e amigos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Um dia, um adeus...





“É tão estranho, os bons morrem jovens
Assim parece ser, quando me lembro de você
Que acabou indo embora, cedo demais...”


Era uma noite festiva de inverno num clube da cidade. No palco, a Banda Azul de Quixadá animava a multidão. De paquera do lado, eu perambulava por entre a galera. “Vou ao banheiro”, disse-me ela. Nunca mais voltou. Continuei vagando solitário e eis que me aparece aquela figura: Cabelos ondulados, rosto angelical, copo na mão. Aceita uma bebida? “claro”, respondi. Quer dançar comigo? Gelei dos pés à cabeça. O homem sempre gela quando passa de caçador à caça, principalmente eu, que nunca aprendi a dançar. Mas nunca fui homem de fugir e, em meio a passos atrapalhados, inesperadamente fui pegando o ritmo. Meia hora depois eu já me sentia um Beto Barbosa. Começava a surgir ali uma química perfeita e pensei: Vai rolar! Tempos depois ela me questionou: “Como você aceita bebida de estranhos numa festa?” Respondi-lhe: “Se você tivesse me dado azeite com prego, eu teria bebido!”

Por volta das três da madrugada, a festa acabou (puxa, tão cedo!). Descobri que morávamos perto, no mesmo bairro. Há apenas cinco quilômetros de onde estávamos. E o que são cinco quilômetros quando você sente a vontade de caminhar junto para todo o sempre? Éramos uma turma de oito pessoas. Saímos a caminhar tagarelando pela madrugada. Uma pequena pausa na rodoviária para comer um... doce! Que coisa estranha, pensei. No caminho, uma carona inusitada: alguém num Del Rey nos convidou a todos. Tratava-se da velha síndrome da solidão nas madrugadas. Emalados feito sardinha, partimos para a última aventura da noite.

Nos dias que se seguiram vivemos um conto de fadas. Passeios, encontros festas, viagens, pescarias. Íamos de bicicleta almoçar nos melhores restaurantes da cidade. Havia algo muito forte que nos unia. Eu nem conseguia entender direito. Só vivia. A música sertaneja explodia nas paradas. Certo dia, numa mensagem através do rádio, ela me dedicava uma música simples, mas contextualmente forte: “Tire seus olhos dos meus, eu não quero me apaixonar. Ficou em mim um adeus que deixou esse medo de amar. Eu já amei uma vez e senti a força de uma paixão. A gente às vezes se entrega de mais e esquece de ouvir a razão...”

Alguns meses depois, um fato iria mudar nossas vidas para sempre. Um pequeno incômodo na articulação do braço direito, fisioterapia, exames e uma descoberta terrível: Havia um tumor ósseo maligno. Seria necessário amputar todo o braço. Fui a São Paulo acompanhá-la. Perdi um semestre na faculdade. Experiência difícil para quem estava começando a viver.

Ela carregava todos os elementos para ser infeliz: Havia sido mãe solteira precocemente num relacionamento malfadado, sofria com a separação dos pais, nunca arrumara um emprego formal, nunca conseguira concluir o ensino médio, descobrira um câncer fulminante aos 22 anos de idade tendo que amputar um braço e conviver com o preconceito e, por fim, o tratamento quimioterápico provocara-lhe uma menopausa precoce. Não mais poderia ter filhos. E o que ela fazia? Vivia intensamente cada minuto da vida!

Passado o transtorno maior ela recuperou-se. Voltou a estudar, planejar a vida. Eu estava no meio do curso superior. Engajado no movimento estudantil, respirava a política. Sonhava com uma revolução e juntava dinheiro para ir a Cuba. Começamos a trilhar caminhos diferentes. Certo dia, durante exames de rotina, uma descoberta inusitada: ela estava grávida! O destino, mais uma vez, aproximava nossas vidas.

Os anos que se seguiram foram de amor intenso e desafio constante. Por diversas vezes, ao falarmos sobre a vida, a doença e o futuro, eu não conseguia conter as lágrimas e ela, em sua infinita tranquilidade, me dizia: calma. Tudo vai passar. Tudo vai ficar bem. Instalava-se ali, uma inversão de papéis. Aquele que deveria confortar estava sendo confortado por aquela que tinha uma sentença de morte.

Quando pensei em candidatar-me a vereador ela foi minha maior aliada, mesmo sabendo que iria dividir a minha atenção com dezenas de outros compromissos. Mesmo debilitada, engajou-se na campanha, pedia votos e ainda chegou a comparecer no dia da eleição para votar em mim. Faleceu um mês depois.

Ela partiu numa manhã nublada de dois de novembro. Há dez anos. Ainda assistimos à missa do Padre Marcelo Rossi pela TV. Minutos depois, ela balbuciou que não estava sentindo as pernas, os braços. Segurou forte a minha mão e falou: “Muito obrigada por tudo...” As últimas palavras não foram de desespero, mas de agradecimento. Fechou os olhos como uma criança após o enfado de um dia de muitas brincadeiras. Tinha um semblante sereno. Ela via Deus.

Durante muito tempo tentei compreender o porquê de tudo isso. Hoje entendo perfeitamente os planos de Deus. Ela precisava de alguém para atravessar os momentos mais difíceis de sua vida. Eu precisava de alguém para me mostrar que a revolução maior não se dá pela força bruta, mas dentro do coração das pessoas.

Muitos dizem: Puxa, como você foi importante prá ela! O que poucos sabem é o quanto ELA foi importante prá mim. O quanto aprendi com a sua companhia, com seus ensinamentos, e, sobretudo, com seu exemplo. Com ela aprendi a dar mais valor à vida. A lutar por tudo aquilo que acredito. A valorizar cada dia como se fosse o último. A não me desesperar diante do sofrimento mais terrível. A amar sem esperar nada em troca. A perdoar àqueles que me fazem mal. A me alegrar com as pequenas coisas. A valorizar aquilo que realmente é grande: o amor ao próximo!

Na verdade, ela não se foi, continua perto e dentro de mim. Posso vê-la eternizada no sorriso dos filhos, nas noites em que as estrelas mais brilham, na chuva fina dos finais de tarde, no rosto daqueles que transformam a vida num sinal de esperança.

Seu filho tornou-se meu filho; sua mãe tornou-se minha mãe e grande amiga; sua família tornou-se a minha família. Apesar de todas as imperfeições, aprendi com eles ensinamentos que, até então, eu só conhecia na teoria: a solidariedade, a partilha, o desprendimento, o valor do encontro, da confraternização, do riso. Valores muito mais sólidos do que aqueles que encontrei na minha própria família certinha, rezadeira, mas, com raras exceções, extremamente egoísta.

A vida seguiu seu curso e, quando menos espero, aparece algum fruto do que plantei. Nem sei se mereço tudo isso. Sou muito feliz, novamente!

Hoje, pela primeira vez nos últimos dez anos, não pude visitar seu túmulo. Faço, aqui, no entanto, essa pequena homenagem no anseio de que sua memória nunca seja esquecida.

“Márcia, um cheiro bem grande e até qualquer dia...”!

1. Um dia, um adeus. (Guilherme Arantes)
http://letras.terra.com.br/guilherme-arantes/46321/
2. Love in the afternoon (Renato Russo)
http://letras.terra.com.br/legiao-urbana/46947/
3. Você se lembra. (Geraldo Azevedo)
http://www.youtube.com/watch?v=VR0zLZEfPM0
4. Não olhe assim (Leandro & Leonardo)